terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Mar de chamas


Enfrento correntes de ódio
que querem me destruir
ou plantar ódio em mim.

Prefiro ópio,
ou qualquer coisa
que venha a somar
nesta dança de nuvens
onde resistem
meus sonhos.

Me faço fogo
dentro do frio.

Posso morrer congelado,
derretido, asfixiado,
ou mesmo partido
nos mil pedaços,
mas resisto e persigo
meus próprios rastros.

No bombardeio e na desordem
escondo-me sobre os escombros,
para ressurgir como fênix
trazendo restos mortais
                                      – nos ombros.

David Henrique


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Rodamoinhos


Os ventos que saem de mim
vão a lugares que desconheço.

Os ventos que fogem de mim
sempre acham um novo endereço.

Os ventos que passam por mim
lembram coisas que eu esqueço.

Os ventos que voltam a mim
são os que, de fato, mereço.


David Henrique

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Confissões de Alícia


Tentei por vezes ser amada
da mesma forma que amei,
mas no fim, era desprezada
junto com tudo que guardei.

Inventava vários amores
e me entregava por completa,
pra depois alimentar dores
que devoram minha alma deserta.

Hoje, já não consigo mais
carregar esse sentimento,
minhas tentativas são banais,

meu coração é um tormento
quebrado em partes iguais:
ilusão, prazer e lamento.

David Henrique

terça-feira, 9 de setembro de 2014


Muito cedo levanto
para acordar o dia,
das aves ouço o canto
dos ventos um bom dia.

É nas calmas manhãs
que encontro meu sossego,
plantar e criar bichos
sempre foi o meu emprego.

Não me vejo em cidades,
grandes bares ou praças,
aqui tenho utilidade,
lá mal sirvo de graça.

Em caminhos de terra,
arames, pedras, telhas,
meus passos trilham guerras
que são bem mais verdadeiras.

A este lugar pertenço
feito uma planta no chão,
um pico alto no vão
livre das contas do tempo.

Sigo minha tradição
e por aqui permaneço,
as noites vêm e vão,
mas eu não envelheço.

David Henrique


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Suvenir



Não me aguardes neste lugar
por onde não irei passar

fuja, em quanto há tempo
e se livre desse tormento

já não há em mim vontade
de voltar a esta cidade

o sangue já lava calçadas
a carne ao sol é queimada

as faces são modeláveis
as fases são descartáveis

o piso é movediço
o encontro é um sumiço

as plantas são venenosas
as flores são perigosas

as cores perderam a tinta
e tudo se enxerga em cinza

o afago do vento corta
galhos de árvores mortas.

David Henrique

domingo, 10 de agosto de 2014

Memórias paternas


Contam-se hoje mais ou menos seis luas que encerrastes tuas atividades neste plano, naquele fim de tarde dentro daquela sala branca. Minha cabeça rondava em outros planetas durante tuas últimas horas, acreditando eu, que te recuperarias das mãos das células malignas. Nossa relação familiar ao longo da vida não foi a mais pacífica nem era comum. Naquele hospital, em algumas semanas de conversas contínuas temperadas com humor e muita putaria, pudemos ter mais intimidade e proximidade. Sempre irei recordar das tuas cômicas e verdadeiras afirmações machistas do tipo: homem que se apaixona é otário, as mulheres não são de confiança, etc. Do dia em que se desculpastes por não estar por dentro dos meus papos sobre literatura, mas falastes que achava interessante, e é uma pena que não tenha conhecido e mergulhado nesse mundo. De tudo que foi interessante ou que despertou risos e coisas positivas, o que foi contrário a isso não mais interessa. O que interessa é que tua missão foi deixar tuas crias na terra para evoluírem nossa árvore genealógica. E os frutos que já brotam te valem um motivo de orgulho e paz. Hoje é o primeiro dia dos pais que não nos encontramos para tomar aquela velha cerveja e comer aquela lasanha gigante do caralho que tu fazias (a melhor de todas). E sempre lembro dessas e outras imagens, lembro também o quanto a vida é efêmera e que a propriedade de prazer máximo dela consta nos momentos em que sugamos até o último sopro de vivência, deixando um vácuo nas horas que passam, mas não são por acaso.

(David Henrique)



quinta-feira, 3 de julho de 2014

Explorando terras movediças


Procuro demais
não consigo achar
quanto mais busco
mais tento buscar

o espaço é vasto
a oferta é grande
a certeza é pouca
a dúvida constante

tiros não certeiros
voltam ao atirador,
flores no enterro
não são dadas por amor

o mundo segue cheio
de seres que esvaziam
os céus correm cheios
de coisas que arrepiam

E cá estou, à procura
de não sei o que porra,
talvez finde esta loucura
até o dia em que eu morra.

(David Henrique)

terça-feira, 17 de junho de 2014

Palavras sem ordem




Dura e dita,
Grita a cura:
Abaixo a velha,
A nova, a puta
Ditadura!

(David Henrique em "Útero de retratos mundanos")

terça-feira, 10 de junho de 2014

Profanação religiosa



Escondeu-se atrás da igreja
e mal abriu a bíblia,
não há fé que se teça
baseada em metonímia.

Prega a palavra apócrifa
mas sua ação é hipócrita,

nem padre nem pastor,
não há vaga no céu
para qualquer impostor.

Porém há salvação
um pouco abaixo do chão.

(David Henrique) 
 

terça-feira, 27 de maio de 2014

Contracapa



Por trás deste sol
que queima os olhos

há noites e auroras
com riscos de luz.

Por trás do mundo
há um espaço:

perene, fecundo,
feito de aço.

Por trás do poeta
há um abismo:

de vidas e metas
sem eufemismo.

(David Henrique)