domingo, 10 de agosto de 2014

Memórias paternas


Contam-se hoje mais ou menos seis luas que encerrastes tuas atividades neste plano, naquele fim de tarde dentro daquela sala branca. Minha cabeça rondava em outros planetas durante tuas últimas horas, acreditando eu, que te recuperarias das mãos das células malignas. Nossa relação familiar ao longo da vida não foi a mais pacífica nem era comum. Naquele hospital, em algumas semanas de conversas contínuas temperadas com humor e muita putaria, pudemos ter mais intimidade e proximidade. Sempre irei recordar das tuas cômicas e verdadeiras afirmações machistas do tipo: homem que se apaixona é otário, as mulheres não são de confiança, etc. Do dia em que se desculpastes por não estar por dentro dos meus papos sobre literatura, mas falastes que achava interessante, e é uma pena que não tenha conhecido e mergulhado nesse mundo. De tudo que foi interessante ou que despertou risos e coisas positivas, o que foi contrário a isso não mais interessa. O que interessa é que tua missão foi deixar tuas crias na terra para evoluírem nossa árvore genealógica. E os frutos que já brotam te valem um motivo de orgulho e paz. Hoje é o primeiro dia dos pais que não nos encontramos para tomar aquela velha cerveja e comer aquela lasanha gigante do caralho que tu fazias (a melhor de todas). E sempre lembro dessas e outras imagens, lembro também o quanto a vida é efêmera e que a propriedade de prazer máximo dela consta nos momentos em que sugamos até o último sopro de vivência, deixando um vácuo nas horas que passam, mas não são por acaso.

(David Henrique)